domingo, outubro 29, 2006

Exposiçao de Jorge Molder no CAV Centro de Artes Visuais, Coimbra




De 21 de Outubro a 31 de Dezembro
De Terça a Domingo das 14.00 às 19.00

Sinopse

1º Piso : Rosto do Artista nunca é identificavél, ou porque está escondido e metamorfoseado, ou porque as imagens incidem sobre fragmentos (olhos), ou ainda por que esta ausente das imagens.

Escadas : Poisa a obra viedográfica, que trata da permeablidade entre um espaço e outro, referindo-se também à história da pintura e ao monocromatismo.

2º Piso : "A condição Humana", trabalho complexo e cinematográfico.

Conferência/Visita Orientada
pelo curador da exposição, Delfim Sardo
2 Novembro, Quinta feira, pelas 16:30 horas - Entrada Gratuita

INSCRIÇÃO: Basta telefonar, enviar fax ou email com os dados pessoais (nome, iidade, profissão e contactos até ao próximo dia 27 de outubro.

T. 239 826 178 F. 239 820 154 M. catarinaportelinha@cav.net4b.pt / mvaz@cav.net4b.pt

quinta-feira, outubro 19, 2006

Tu

Numa sala branca encostada a um canto, estavas tu: deliciosamente definida,
de formas perfeitas e sorriso malvado.
Acampavas todos os olhares e sugavas as vontades,
ruim e definidamente errada.
Dona de todas as melodias, marcavas os compassos com o movimento do teu corpo,
e o teu cheiro: gelado e perfumado mantinha os ventríloquos quentes e as mãos suadas.
A tua loucura semeava o medo e fertilizava a esperança,
e teus olhos assustavam os deuses e afrontavam os animais.
Possuída pela incapacidade, aninhada nas trevas, rugavas o mal sobre os homens, friamente má e puramente capaz tornas-te na cobra terreal.
Fizeste da maça o pecado e de ti o veneno,
enlouquecida ardeste no tempo e o teu fumo sumiu.
O teu cheiro morreu e ninguém se apercebeu

terça-feira, outubro 17, 2006

Oblação aos deuses ião-neutrão

Iões e neutrões copulam por cima de nós,
frios e cientes semeiam o pânico.
Os seus orgasmos estridentes e penosos,
rompem o silêncio e queimam a paz.
A chuva camuflada pela noite apodera-se das arvores,
ensopa a terra e inunda as almas .
As pessoas oxidam, os corpos desfazem-se,
as palavras tornaram-se ácidas e o homem poetrasto.
Deus nos fez, nós nos criamos,
bichos inanes ulcerados até não.
De joelhos rasgados e mãos chorosas,
Subimos às pedras despidos e vincados.
Os deuses saboreiam-se entre si,
fazem do céu a última ceia.
Na terra os animais suplicam o orgasmo final.

domingo, outubro 15, 2006

Vida na aldeia

Pé ante pé caminho pelas frechas da calçada enquanto o bêbado adormecido sob a pedra enrola-se sobre si. Escondo-me em casa e espreito pela janela.
Os candeeiros a média luz iluminam o que podem, enquanto a lua uiva para o monte. Faz algum tempo que o escuro da noite faz da pequena aldeia uma casa assombrada. O gato no telhado salta de telha em telha despertando os poucos todos os animais da aldeia e o caos da noite começa-se a impor.
Os animais tomam conta do espaço, abalam das lojas, deixam as pedras frias, e fogem para o monte - a lua espera-os.
Todas as noites sacrificam um homem da aldeia e hoje não foi excepção. O porco arrastou o seu dono entorpecido pela única rua até ao cume do monte.
Os animais despertam o homem, dão-lhe hipótese de fugir. Uma luta justa pela vida é o que pretendem. O homem foge, corre e chama por deus - este não lhe liga. Durante a noite deus também é animal, copula com o sol do outro lado aldeia, do outro lado do mundo. Cavalos, ratos, porcos e galos e outros tantos animalos enchem a barriga.
O homem era tão anafadinho quanto o seu porco, refeição divina certamente.
A lua que tinha iluminado a caçada despede-se, os animais recolhem.
É domingo e a luz do dia ilumina o porco - está no ponto. Oitenta quilos de satisfação vão para a brasa.
A mulher do homem abraçada à porca guincha com ela e ambas choram a despedida - a facada final está dada.
O sangue desce devagar pela calçada e o dia ainda vai a meio.

Passeio pela rua e com medo da noite tranco-me em casa.
Agora é a vez deles!

A Era da Orgia Fragmentada

Um convite. Aceita-se a promessa do prazer.
Houve-se o swing despercebido na doce melodia do instante.
As mãos suam, as orelhas aquecem o peito rebenta.
O galo rompe o silêncio a vaca vira porca.
À mercê da sede passeia-se nos corpos fundos de fungos,
onde os segredos crescem sobre formas geométricas.
O consolo torna-se em folhas de Outono - descoloradas e quebradiças.
A cidade suspensa desaba como um “pum”, ficando um cheiro nauseabundo.
A orgia é dos ovinos com caprinos,
a chocalharem entre si na calçada ao som de um compasso a três tempos.
Fogueiras de pautas de música que aquecem a noite,
cortam os lábios, queimam os olhos, agoniam os ventos inquietos.
Os animais salivam.
Vem aí mais um fragmento
Quem é?
Sou eu - responde a Cabra.

#151006

A noite à muito que se plantou,
e nas ruas o eco permanece calado.
Os pássaros de pena fina tremem de frio,
a as arvores despem-se para a chegada do sol.
Ouve-se o comboio ao longe despertando a manhã,
e Outono chorando pela primeira vez.
Os cães ladram ás folhas que caiem,
que sem cor e alegria beijam o chão.
O padeiro faz da farinha pão
e as mães não tardam da água chá.
O vento assobia agora e os ramos dançam,
o sol chegou.
A calçada deixa de bater o dente,
A noite morreu.

Ao Dinoussauro

O Dinoussauro. Eu vi-o, numa rua perto da minha,entre lúcido e ácido momento, com o mundo nas mãos.
O seu olhar traçava uma perpendicular ás raparigas, ao mesmo tempo que o seu estômago bolsava um estranho cheiro a mar morto.
Naquele momento, enquanto a terra aparentemente adormecida, o dinossauro despertava anunciando a eternidade.
Passeava nos sonhos das donzelas,tacteando avilmente os seus peitosque brotavam vozes de desejo.
Todas as noites, a hora certa, tamanho animal uivava do cimo da colina,num som estonteante,
libertando um baba que escorria o monte, que acalmava as queimaduras das virgens moças até as virgens santas.
Na única casa do monte, de uma pequena janela estava uma menina,uma linda menina, Heidi de seu nome.O seu olhar doce e coração arritmado fez uma pergunta há muito desejada:
Como te chamas?
O dinoussaro parou o seu grito orgásmico como se tivesse a copular com mundo e disse o que nunca antes dissera:
Meu nome é Rui !
Já não havia tubarões no mar...

[ # ]0906

Os sinos tocam
Os badalos rebentam!
Do cimo da torre Escorre o sonho.
Desce
Desaparece
Vulva, Volvendo-se.

Noticias do Além

Noticias do Além
Taparam-lhe os olhos

Ou estará cego?
Não. Está Perdido, responde um sábio.
Montado num funil,como o Aladino no tapete,
Entrou numa viagem.
Foi para longe diz o homem da Portagem.
Faz tempo que desapareceu,
Ninguém sabe dele.
Já nem os cães o reconhecem,
Cagam e mijam sem qualquer remorso.
Casou-se! - disse um velho do Além.
Com quem? – pergunta o padre.
Com a solidão - responde o velho
Uma águia que voava no Além
Viu com uma enxada ás costas:Cultivava um amor cego.
No seu peito já não batia a saudade,
O seu coração estava mais pequeno.
Pobre alma. - Murmurou o padre.

Tetas vindimadas

Do outro lado da rua iam elas,
mais quentes que um cachecol.
Aqueciam as costas à dona e engatavam os calcanhares.
O policia do outro lado da rua já dava sinal,
o fogo estava ateado.
Um catraio mijava contra os queixos,
e de seus bolsos saia um formigueiro.
A rua estava embrutecida.
O terreno já estava lavrado,
Mário, o agricultor já as tinha vindimado.
Que doce vinho jorravam roliças irmãs.
Encorpadas e sempre insaciadas,
cantavam uma velha musica do oeste.

Há coisas que nunca mudam


A rapariga que passa do outro lado da rua
éigual à outra que vi na estação.
O jeitinho de andar suspenso no ar
entrega-lhes uma beleza perturbante.
Os seus seios içados por um anzol
deliciam as calças dos transeuntes.
Banhadas em baba escorregam para chapa,
onde os homens já arregaçam as mangas.
A rua virou um churrasco,
a Porca já está na brasa.
O fumo que sai é negro como a tinta de carvão,
negra como a alma cheia de podridão.
Todas têm o mesmo cheiro:Deliciosamente mau e nauseabundo,
mas o sabor é sempre o mesmo…

Sorte.
Já Pessoa dizia: “ sorte se sorte te é dada”.

Cambaleando pelo trilho,o suspiro da crença abafa o “rodeo”.
A sorte pode ser do tamanho da nossa rua,
bem como do tamanho da nossa cidade.
Tudo fica ou nada sobra,
Tudo quer ou tudo salta.
A sorte tem tamanho,
se a vida sorte tem.
Mas como o verso,
tudo acaba.

Joe

Puro Lusitano galopando no éden,
Colhes as frutas dos deuses e fermentas o mundo dentro de ti.
A tua força é maior de qualquer homem,
És o animal, transpiras a sabedoria e transbordas o amor.
Coração de dragão, cheio de octanas,Matas a serpente e conquista os poderosos.
Fazes da uva o melhor vinho: encorpado e aveludado,
E conquistas as mulheres mais perfeitas.
Tornaste-te no Ás das cartas, no rei dos castelos,
No homem na lua, no deus na terra.
Divide a tua alegria, sem medo,
e abraça-nos com a tua saudade.
Ámen.

Oxalá

Oxalá que todas as vacas sejam assim,
brancas e malhadas.
Oxalá que todas as vacas sejam indianas,

sagradas e com pinta.
Oxalá que todas as vacas sejam boas vacas,
como esta e aquela.
Oxalá que todas as vacas não nos façam de touros,
Oxalá que de vacas, vacas não tenham nada.
Oxalá.

Oxalá

Oxalá que todas as vacas sejam assim,
brancas e malhadas.
Oxalá que todas as vacas sejam indianas,sagradas e com pinta.
Oxalá que todas as vacas sejam boas vacas,
como esta e aquela.
Oxalá que todas as vacas não nos façam de touros,
Oxalá que de vacas, vacas não tenham nada.
Oxalá.

A Vaca que ri

A vaca que ri mora na minha rua,
Passa a noite a mugir como não houvesse amanhã.
A sua língua lisa e o seu corpo endeusado
Encalha qualquer homem na porta 18.
É o manjar dos deuses dizem eles.
É a vaca mais feliz que alguma vez vi,
No seu rosto um rasgo de satisfação.
A rua virou um curral e os animais estão doidos.
Peregrinação de bovinos e caprinos fazem do curral o éden,
Adão e Eva deliciam-se.
A vaca que dantes tinha sido cobra frigida,
Anseia por se tornar agora numa porca.
Estamos no tempo das vacas magras,
Ser leitão ainda rende, é comer até ao tutano, nem a pele escapa- diz a vaca .
A vaca desaparece e a porca ganha asas,
Guinchos para aqui guinchos para acolá.
O som agora é desconfortante.
Ninguém dorme e os miúdos não têm descanso,
Mão para aqui mão para acolá.
Ninguém sabe o seu nome, não interessa,
Apenas tem de ser uma porca que ri.